
Já haviam se passado nove meses desde que Alexandre Nardoni e Ana Carolina Jatobá foram acusados pela primeira vez da morte da menina Isabella. Mas, de abril de 2008 para cá, pouca coisa mudou na forma como a mídia tratou o assunto. A enxurrada de informações sobre o caso voltou à tona e garantiu mais recordes de audiência na semana em que o veredicto é sentenciado.
A discussão em torno da morte de Isabella sacudiu toda a mídia. TVs, rádios, jornais, revistas e internet repercutiram o fato com intensidade e evidência. No caso das emissoras TV, por exemplo, o julgamento rendeu recorde de audiência à Band. Durante o programa “Boa Tarde”, no dia 26, foram três pontos de média e quatro de pico. A atração normalmente registra apenas um no Ibope.
A Record também garantiu pontos valiosos. Por 21 minutos chegou a conquistar a liderança no ranking geral das audiências com a exibição do “Record Notícias” focado no caso Isabella, no dia 23. Por sua vez, a Globo News, chegou a alterar sua grade de programação em função do assunto.
Jornalista e criador da TV online AllTV, Aberto Luchetti demonstra indignação pela forma com a qual a mídia trata o assunto.“ [A cobertura] começa sóbria e termina ‘over’. Não tem mais o que falar”, critica. Para ele, a abordagem começou em tom informativo e agora se tornou apelativo. O factual perdeu espaço. “Eles transformam advogados, ex-juizes e juristas em comentaristas para dizer o óbvio”, resume.
Na internet, a enxurrada se deu por meio da união dos grandes portais com as redes sociais. Além de blogs, infográficos, vídeos e contribuições de internautas, os portais investiram na criação de perfis no Twitter para acompanhar o assunto, como o mantido pelo IG, e informações atualizadas via Facebook. Ainda assim, Luchetti considera a cobertura na web mais criativa do que a feita pela TV: “a TV falou exaustivamente sobre as filas em frente ao Fórum, foi redundante”.
Na teoria
No âmbito acadêmico, a abordagem da mídia também gerou polêmica. Segundo Marcos Cripa, professor de telejornalismo de graduação da PUC-SP, o questionamento básico é de que maneira a mídia pode influenciar o julgamento final do casal.
"A mídia entra na cobertura e só sai quando termina. No entanto, é preciso avaliar a qualidade. Quando o casal partiu para o Fórum, a mídia - a todo tempo - já os consideravam culpados", disse. Para ele, o tratamento ao caso foi no tom de show. “Tornar um drama da sociedade moderna - pais matando filhos - em conteúdo para ganhar audiência é ruim, pois a transforma em espetáculo”, afirma.
Cripa alerta para uma inversão de valores no caso Isabella. “A mídia está buscando o interesse do público (que gera audiência) em detrimento do interesse público (o que realmente interessa)”.
O professor criticou também a abordagem feita pelas redes sociais. "Estou espantado com a cobertura online, como no caso do ex-juiz que twitou o que presenciou no julgamento em seu perfil no microblog. Por que o jornalismo precisa fazer cobertura minuto a minuto?", questionou o professor.