
Da janela de seu escritório, do alto do 24º andar de um edifício comercial na avenida Paulista, coração empresarial de São Paulo, Antonio Augusto Amaral de Carvalho observa o vai e vem dos carros enquanto pensa na vida. Aos 78 anos, Tuta, como é conhecido, poderia estar planejando uma viagem com os netos ou um passeio qualquer, mas ele não é um homem que nasceu para levar uma existência comum. Dono da rádio Jovem Pan, uma das maiores do Brasil, Tuta tem no currículo nada menos do que a primeira transmissão de tevê ao vivo entre o Rio de Janeiro e São Paulo, que ele ajudou a realizar, e a criação dos festivais de música da Record, que lançaram artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil e levaram a emissora à liderença durantes os anos 60. Ele poderia passar o tempo relembrando seus feitos notáveis, mas Tuta não quer saber de sossego. Agitado, inquieto e apaixonado pela rotina do trabalho, este quase octogenário agora se diz um homem da internet.
Ele foi o principal responsável pela reformulação do portal online da Jovem Pan, que se limitava a retransmitir notícias da rádio. Agora, o site da Pan tem até tevê - e isso é obra desse simpático velhinho.
Para levar adiante a nova empreitada, o empresário contratou o diretor Nilton Travesso, ex-diretor do núcleo de teledramaturgia da Globo e amigo de longa data, para tocar o negócio.
"Quero colocar grandes musicais, shows e todo tipo de entretenimento à disposição dos internautas, inclusive para download", diz Tuta. "Além disso, teremos um jornalismo forte, com espaço para informação, opinião e entrevistas com especialistas de diversas áreas. O grande diferencial é que na televisão existe a limitação do tempo, enquanto na internet podemos produzir materiais com até duas horas de duração", continua o empresário, que deixou a cargo de Travesso a missão de estruturar e equipar o novo portal. Tuta, no entanto, está sempre por perto. Não só no site como em tudo o que envolve o dia a dia da rádio. A presença constante, diz, dá agilidade aos processos decisórios e torna a rádio uma extensão de sua própria personalidade. Da elaboração de reportagens especiais à liberação de verbas para viagens, tudo passa pelas mãos do chefe, que vive com as portas de sua sala aberta e não tem sequer uma secretária para cuidar de tanta demanda. "A figura do dono já não existe mais nos meios de comunicação, mas ela é vital para o andamento da empresa", diz Tuta. "Quem mais do que eu pode saber o que é importante ou não aqui?", questiona.
Com um estilo bonachão, conhece pelo nome a maioria dos funcionários da rádio - seja qual for o nível hierárquico - e não perde a chance de fazer uma piada. Por outro lado, quando as coisas não vão bem, é o primeiro a cobrar sua equipe. "Nenhum dono de televisão ou rádio que eu conheci, em meus 40 anos de trabalho, é mais do ramo que o Tuta", diz o apresentador Fausto Silva, ex-repórter esportivo da Jovem Pan. Outra pioneira da televisão, a apresentadora Hebe, reforça os elogios. "Cheguei à Jovem Pan em 1967 e me lembro que o Tuta já participava de tudo. Todos aprendemos muito com ele", diz Hebe. Até José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que costuma ser arredio para falar dos outros, é só elogios. "Tuta é um profeta", afirma Boni.
Com cerca de dois milhões de visitantes únicos por mês, o novo portal da Jovem Pan começa a se firmar entre os grandes e, consequentemente, gerar novas receitas para o grupo. Quanto? Isso ele não revela nem sob tortura. "Quanto custa um anúncio no meu site? Não sei. Não existe uma quantificação exata na internet. Uns falam que pode ser R$ 10 mil, outros acham que não chega a R$ 1 mil. Dizem que há institutos e pessoas capacitadas para dar uma informação absolutamente correta, mas o preço que elas cobram torna o serviço inviável. Pelo menos para nós", despista. "Se a Jovem Pan é hoje uma empresa financeiramente saudável, é porque eu não gosto de jogar dinheiro no lixo", completa o empresário.
Tuta está de olho num negócio que, segundo especialistas, ainda está muito longe de atingir o seu potencial. Hoje as verbas publicitárias destinadas à internet já se equiparam às da televisão em alguns países desenvolvidos. No Brasil, estima-se que seja destinado R$ 1 bilhão por ano em anúncios veiculados no universo virtual. É pouco perto dos R$ 20 bilhões que o setor publicitário movimenta no País. Tuta, porém, sabe que isso tende a mudar. É bom mesmo não duvidar do homem que ajudou a consolidar a tevê e o rádio no Brasil.